domingo, junho 15, 2014

UMA PRENDA - DUETO DA PAZ COM JOÃO FURTADO

Nesta semana faço anos e gostaria de pedir uma prenda...desejando a todos os amigos, um feliz domingo e uma semana iluminada!

UMA PRENDA

No dia dos meus anos queria pedir uma prenda
mas não vou pedir a ninguém em especial
nem ao meu pai, porque já faleceu há anos
nem ao meu marido, porque trabalha muito
nem aos meus filhos, porque ganham pouco
nem á minha mãe, porque já é idosa e viúva...

Não...

Eu vou pedir a todos nós, os seres humanos
a todos os homens que assassinam e roubam
e batem em mulheres e crianças e em velhos
e maltratam e abandonam animais indefesos...
a todas as mulheres que abandonam os lares
e maltratam e assassinam seus filhos, sem dó
a todos os jovens que negligenciam os estudos
e desperdiçam a sua vida nas drogas e bebidas
enquanto o futuro os aguarda sem que cheguem...

Mais vou pedir...

a todos os governantes dos países do planeta
a todos os políticos corruptos e milionários 
a todos os ricos que não pagam os impostos 
a todos os médicos que abusam do seu poder
a todos os cientistas que cuidam do planeta...

Dêem-me uma prenda hoje...

A prenda da paz, caridade, honestidade e amor
somada á fraternidade, á compaixão e ao respeito
temperada com solidariedade, união e empenho
ligada com a cola da justiça universal, da igualdade
da tolerância entre todos os seres diferentes 
do cuidado com o ambiente e a nossa Mãe Terra!

Assim no futuro, em todos os meus aniversários
serei feliz, estarei tranquila, calma e serenamente
poderei partir quando chegar a minha hora de ir...
porque os nossos filhos terão um lar, um futuro
e uma vida digna para ser saboreada e usufruida
e mais que tudo, terão bons exemplos a seguir,
para transmitirem a nossa herança ao futuro
e o nosso mundo poder continuar a sua marcha
rumo ás estrelas, atravessando o céu e as galáxias!
Arlete Piedade Louro

Vice-Presidente da U.L.L.A.-União Lusófona das Letras e das Artes
Representante em Portugal da Associação Internacional de Poetas


ARLETE PIEDADE LOURO

À Nigéria irei e pedirei a “Boco Haram”
R espeitosamente que para ti, minha amiga
L ibertem as meninas e elas possam voltar às escolas
E assim estudarem e construírem o futuro da terra
T ambém, na viagem, passarei por Corno de África
E centro e norte e sul deste continente e pedir para plantarem a Paz...

P or Iraque irei e ali falarei de ti e da necessidade
I mperiosa de sentirem que a violência só violência dá
E mesmo por cá, onde a paz reina há esforço
D ecerto que por ti pode-se fazer amiga
A qui podemos ensinar os nossos filhos
D ize-los para estudarem e não verem na fácil vida um caminho
E os nossos governantes devem ver para a pobreza e a igualdade

L onge ou perto sempre existem coisas por melhorar
O caminho da Paz merece pequenos sacrifícios
U m passo importante na cidade do filho da Loba
R esplandecentemente o improvável trio deu
O gesto nobre simbolizado no plantar da Oliveira

PARABÉNS E MUITAS FELICIDADES E MUITA POESIA E PAZ minha amiga e irmã portuguesa!

João P.C.Furtado

Praia, 15 de Junho de 2014
http://joaopcfurtado.blogspot.com
Embaixador Universal da Paz - França - Genebra - Suiça - Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix
Delegado da U.L.L.A. em Cabo Verde


ABRIL LIBERDADE

ABRIL LIBERDADE
Tu, que foste militar de Abril e fizeste a revolução,
saindo de Santarém, na Escola Prática de Cavalaria,
até atingir Lisboa, pela madrugada silenciosa e fria, 
agora sexagenário, que balanço fazes da situação?
Tu, que foste preso e torturado, pela Pide sinistra 
para abafar a tua voz, que denunciava a injustiça,
partiste para o exílio, buscando viver a liberdade 
voltaste, e agora, ainda continuas a ser socialista?
Tu, mãe que em África, os teus filhos, enterraste 
e agora sobrevives com uma miserável pensão, 
vais morrer de fome, abandonada num casebre
até o teu mau cheiro, atrair algum bicho ou cão?
Tu, nobre povo, que navegou nas naus e caravelas, 
enfrentando o mar bravio e os monstros oceânicos,
destes mundos ao Mundo, pioneiro da globalização,
hoje partes, em busca da dignidade, longe deste chão?
Senhores do capital, corruptos, usurários e agiotas 
compram os políticos eleitos pelo povo da nação,
despojam a pátria de Camões, do fruto do trabalho
o deserto árido, deixam á futura geração, patriotas?
LIBERDADE gritam os povos, oprimidos e escravizados
LIBERDADE, gritaram em França, no assalto á Bastilha
LIBERDADE gritaram os escravos nas naus aprisionados 
LIBERDADE gritaram os negros em África colonizados!
LIBERDADE gritaram os operários no 1º de Maio, explorados
LIBERDADE gritaram as mulheres na fábrica, queimadas
LIBERDADE gritam os homossexuais no amor discriminados
LIBERDADE gritam as crianças da sua infância, espoliadas!
LIBERDADE gritam os polícias, e os guardas prisionais
LIBERDADE gritam todos os povos que aspiram a mais
Todos querem melhor vida, casas, carros e dignidade
Prendam os ladrões, confisquem o capital
reinventem Abril, libertem a LIBERDADE!!!!

Arlete Piedade Louro

Poema participante no IV Encontro de Poetas Locais, na Sala de Leitura Bernardo Santareno em 22 de Março de 2014; Nos eventos Poesia na Rua, em Santarém, no dia 10 de Maio de 2014 e na Poesia na Rua, em Lisboa dia 31 de Maio de 2014. Eventos integrados nas comemorações dos 40 Anos do 25 de Abril numa organização conjunta de Arlete Piedade Louro e Samuel Pimenta, com apoio da Comissão de Comemorações Populares dos 40 Anos do 25 de Abril, da Literarte, da U.L.L.A e da Associação Internacional de Poetas.
Grupo de Poetas Participantes na Poesia na Rua em Santarém em 10/05/2014
 IMAGENS DA CARAVANA DE POESIA DE RUA EM LISBOA DIA 31/05/2014


 ARLETE PIEDADE LOURO DECLAMANDO NA TERTÚLIA NA ASSOCIAÇÃO 25 E ABRIL EM LISBOA, DIA 31/05/2014 NO FINAL DA POESIA DE RUA
E COM SAMUEL PIMENTA EM LISBOA

domingo, março 30, 2014

O CALENDÁRIO


Ruinas da cidade de Machu-Pichu
(imagem retirada da Internet)

Estas recordações referem-se ao tempo em que eu tinha entre quatro e seis anos. Era curiosa e viva, interessada pelas letras e pelos desenhos, mas ainda não sabia ler.
Vivia numa aldeia pequena e pobre, e passava muito tempo naquele quarto simples, porque estava doente e era Inverno. Fazia frio lá fora e chovia, e a minha mãe não me deixava sair, para não piorar.
Decorria então o ano de 1960, não havia televisão, e o rádio só chegaria a casa de meus pais na minha adolescência. Não tinha muitas coisas para me despertar o interesse pelas letras, apenas um jornal regional que o meu pai assinava, e as caixas dos medicamentos que tomava para as doenças de criança.
Como ainda não sabia ler, só via os desenhos das letras e, curiosa, perguntava à minha mãe que letra era aquela e aquela e a outra e a mãe ia respondendo:
- É um A, um E – e por aí fora.
Até que um dia o meu pai chegou do trabalho com um embrulho comprido e estreito, desembrulhou-o e pendurou-o na parede do meu quarto. Fascinada, passei a admirar por longas horas, aquele objeto misterioso, brilhante, cheio de números e letras. Tinha várias folhas, que o meu pai ia mostrando e em cada folha, imagens misteriosas de altas montanhas e casas muito estranhas, feitas de pedras e sem telhados.
Entre as casas, ruas que subiam e subiam pelas montanhas, também feitas de pedras e torres, muitas torres com degraus enormes. Mas não havia ninguém naquelas casas e naquelas ruas, como seria viver naquele local misterioso?
O tempo passou e fui melhorando enquanto via o calendário sempre pendurado na parede do quarto e ia fazendo perguntas que os meus pais respondiam como sabiam. A minha mãe dizia-me o nome dos números e das letras, o meu pai contava-me que aquelas imagens eram de uma antiga cidade em ruínas, onde há milhares de anos, tinham vivido pessoas que pertenciam a um povo chamado Os Incas.
O que também me chamava a atenção era o nome do calendário, porque aquela palavra que tinha duas partes, separadas por um grande pneu, a minha mãe não sabia ler.
O meu pai, que era motorista de camião, explicou-me que aquelas palavras eram a marca de pneus, e que se liam Gudiare, mas o que me fascinava era a história da cidade antiga, que aprendi que se chamava Machu-Pichu.
O calendário permaneceu pendurado naquela parede alguns anos, até eu ir para a escola. Depois de aprender as primeiras letras, consegui ler sozinha o nome da cidade e a marca dos pneus. Agora sabia que era Good-Year e que não era português. Mas só alguns anos depois soube que o significado daquelas palavras era «Bom Ano».
E na verdade foi um bom ano, curei-me da doença, passei a ir à escola e os sonhos tinham começado a germinar na minha mente. Na escola havia um armário no átrio, que tinha dentro das portas envidraçadas, alguns tesouros que eu cobiçava. Eram livros de histórias, os primeiros que via e ambicionava poder ler. Logo que a professora autorizou, li o primeiro. Chamava-se «O Ladrão de Bagdad». Tinha desenhos e histórias admiráveis de ladrões, príncipes e princesas. E tinha locais misteriosos e longínquos também, onde se passava a história.
Assim passei a sonhar em visitar aqueles locais quando fosse grande e ajudar a decifrar os mistérios de antigas civilizações. Escrevia redações onde expressava os meus desejos e que os professores incentivavam, aconselhando os meus pais a prosseguirem os meus estudos.
Nos anos da adolescência e juventude, passei a estudar História do mundo e das antigas civilizações e os sonhos voltaram em força. Como admirava os arqueólogos, os historiadores, os exploradores de selvas virgens, os descobridores de mistérios! Ah, ser arqueóloga, que desejo! Mas nem fazia ideia como tornar possível esse sonho!
Quando descobri como frequentar as bibliotecas públicas, passei a ser uma leitora compulsiva! Lia coleções inteiras de livros juvenis, depois de aventuras, depois de mistérios, dramas, romances, quanto mais misteriosos mais me inflamavam a imaginação ardente!
Os meus pais desejavam que fosse professora, mas acabei por estudar num curso comercial, para arranjar um bom emprego! – diziam os meus pais.
Consegui o tal emprego, e com os meus primeiros ordenados passei a comprar livros de mistérios, muitos livros que devorava e colecionava. Namorei, casei, tive filhos, passei a viver uma vida de classe média nos subúrbios de uma grande cidade. Quando saía do emprego passava na livraria em frente, à procura do último livro de ficção científica publicado! Lia, lia muito! Sonhava, sonhava muito!
Até que um dia...descobri, cansada de ler... os olhos estavam fracos! Custava-me focar as letras...passei a escrever! Escrever os sonhos dos outros e alguns dos meus também!
Já era agora uma mulher adulta e madura, os filhos estavam crescidos, os sonhos armazenados, ainda à espera de uma última oportunidade, e abri a minha caixa de e-mails.
Uma pessoa amiga tinha-me enviado uma música dizendo ser única e rara! Ouvi com toda a atenção! Um descendente dos Incas tocava, numa flauta, uma melodia misteriosa e comovente, acompanhado de uma orquestra, ele era o solista!
Enquanto ouvia aquela música, na minha alma renasceu o sonho! Voltei à infância! Revi as tardes e os dias que passava olhando pela janela do meu quarto, as andorinhas nos ninhos na velha casa em frente, a chuva a cair, o gelo acumulado na janela, e aquele calendário!
Machu-Pichu, os Incas, a cidade misteriosa! Os desejos de ser arqueóloga, exploradora, viajante! Sonhos de criança, sonhos pueris! Ou não? Mas os anos passaram, tantos já! Será que ainda é possível o resgate de alguma parte dos velhos sonhos?

Arlete Piedade Louro

Publicado no livro " ERA NO TEMPO DE...Crónicas de Outras Épocas"


terça-feira, março 18, 2014

DIA DO PAI




A primeira referência conhecida, sobre o Dia dos Pais, tem origem na antiga Babilónia, há mais de 4 mil anos. Um jovem chamado Elmesu moldou em argila o primeiro cartão. Desejava sorte, saúde e longa vida a seu pai.

Nos tempos modernos a comemoração do Dia do Pai, foi retomada nos Estados Unidos da América, no ano de 1909, e na cidade de Spokane no estado de Washington,  onde vivia Sonora Louise.

Na Igreja que frequentava, ao ouvir um sermão elogiando as mães, pensou que o seu pai também era merecedor de um elogio, já que devido á morte de sua esposa de parto do sexto filho do casal, criou sozinho o filho recém-nascido, bem como os seus outros cinco filhos.

Teve assim a ideia de celebrar o Dia dos Pais devido á gratidão e admiração que sentia por seu pai. Para tal enviou uma petição á Associação Ministerial da cidade e o primeiro Dia dos Pais, foi comemorado no ano de 1910 em 19 de Junho, dia do aniversário do pai de Sonora, um veterano da Guerra Civil, chamado John Bruce Dodd.

Como símbolo do evento foi escolhida a rosa vermelha para os pais vivos e a branca para os já falecidos.

A partir daí foi-se espalhando a comemoração pelos outros estados até que em 1966 o presidente Johnson proclamou oficialmente o terceiro domingo de Junho, como o Dia dos Pais, sendo também comemorado em Junho, em vários outros países, como o Canadá, Argentina, Grécia, Peru e Inglaterra.

No Brasil o Dia dos Pais, é comemorado no segundo domingo de Agosto. Em Portugal, Espanha e Itália, este dia é comemorado a 19 de Março, dia de S. José, devido ao simbolismo associado á figura paternal do pai de Jesus Cristo, referenciado com um modelo de paternidade cristã.

Geralmente este dia é comemorado com presentes oferecidos aos Pais, e também com cartões ou poemas alusivos ao dia e ao papel dos pais, feitos na escola pelos alunos em colaboração com as professoras ou comprados pelos filhos mais velhos. Agora com a Internet também se podem enviar cartões virtuais, através dos vários sites que existem para o efeito.

Claro que o comércio nesta época de crise generalizada, aproveita-se deste facto para incrementar as vendas, com produtos dedicados ao universo masculino, mas quantos homens não prefeririam ser lembrados neste dia pelos seus filhos que se encontram afastados deles por motivos diversos, em grande parte motivados pela divisão das famílias por divórcio, em que os grandes perdedores são sempre os pais, que apenas passam a poder ver os seus filhos em dias e horas determinadas.

As ex-esposas e mães quase sempre ganham em tribunal a guarda dos filhos e motivadas por rancores pessoais, acabam por impedir os filhos de estarem com seus pais, as vezes que os mesmos desejam e muitas vezes também não atendem aos acordos estabelecidos judicialmente.

Afinal como o exemplo do pai americano que deu origem á comemoração demonstra, os pais também podem ser “mães” e criar os seus filhos com espírito de sacrifício e amor mas muitos pais hoje em dia acabam por ficar afastados de seus filhos e sem os ver crescer, sofrendo com esse afastamento.

E é para esses e todos os que amam os seus filhos e por eles tudo sacrificam a bem da sua felicidade e futuro, que dedico esta crónica desejando a todos um Feliz Dia dos Pais.

E para os filhos que me estão a ler, deixo um conselho: - Digam a vossos pais como os amam, como os estimam e eles são importantes na vossa vida! Digam enquanto há tempo, enquanto eles estão convosco, pois amanhã pode ser tarde!



Arlete Piedade

DANÇA DA PRIMAVERA





















Em alegres revoadas no céu azul
cores variadas na roupa de penas
chegam estafadas dos caminhos a sul
despertam invejas entre as morenas!

Brincam de balouço nos cabos e fios
Estão de férias, mas querem namorar
Voando colhem por florestas e rios
musgos e troncos para a casa montar

a corte começa no vento cheiroso
em piruetas gentis e simuladas
danças em congregações coloridas

desde sempre, este jogo amoroso
uniu os varões e suas amadas
para conceder ao mundo novas vidas!


Arlete Piedade Louro

sábado, janeiro 04, 2014

NO TEMPO DO INVERNO


AUTORA NO TEMPO DA SUA INFÂNCIA
Com esta semana de chuva e frio que marca o início efetivo do Inverno em tempo real, uma vez que pelo calendário já começou há algumas semanas, recordo-me de outros Invernos e recuo de novo, até ao tempo da minha infância.
Uma das primeiras recordações que tenho do Inverno, foi de um dia de queda intensa de granizo, tão forte e em tanta quantidade, que tapou todo o peitoril da janela, da sala de nossa casa na aldeia, de onde eu espreitava do lado de dentro, muito surpreendida e também desejosa de abrir a janela e brincar com aquelas bolinhas brancas e frias. Claro que a minha mãe não deixou, e imagino que me terá tentado explicar que podia constipar-me. Mas essa parte já não me lembro, só imagino, pela comparação com o que os pais costumam fazer com os filhos.
Recordo também quando ia para a escola, atravessando os campos pelas estradas rurais, com as outras crianças, dos campos cobertos de geada, todos brancos e do encanto que sentia com toda aquela brancura e da luz do sol nascente, cujos raios incidiam nos cristais, fazendo brilhar esplendorosamente toda a paisagem.
Mas era muito frio e as nossas mães, para nos aquecerem as mãos e os sapatos antes de sairmos de casa, na falta de luvas e outros agasalhos, colocavam pedras redondas entre as brasas da lareira, para aquecerem, as quais depois enrolavam em papeis de jornal, para levarmos nas mãos e nos aquecerem. O pior aconteceu, quando uma das pedras estava quente demais e pegou fogo ao papel, provocando apenas um susto, pois de imediato a criança a jogou fora.
Com os sapatos, eram brasas incandescentes que eram colocados lá dentro e abanados os sapatos, para aquecerem com o contato das mesmas, que eram jogadas de volta à lareira, quando os seus donos, tinham que os calçar, para partir.
Também recordo as brincadeiras nos regatos que se formavam, quando voltávamos da escola. Havia um rapaz mais habilidoso que fabricava pequenos moinhos de cana, e represava as águas, formando pequenas lagoas, de onde encaminhava as águas por um pequeno cano, fazendo assim mover os moinhos e colocando-se em evidência, perante as meninas encantadas, é claro.
Por falar em ribeiros, não havia pontes, e num local, tínhamos que atravessar o ribeiro, pulando de pedra em pedra, com as mochilas ás costas.
O pior foi uma vez em que o pé escorregou e tomei um banho forçado, com a mochila incluída. Mas tinha também a parte mágica, de ir espreitar os locais onde cresciam as violetas selvagens e os junquilhos brancos, cujos perfumes embriagantes me deleitavam. Cresciam nas margens dos regatos e ribeiros, em locais aconchegados, que fui aprendendo a descobrir e marcar de ano para ano, para ir descobrir quando floresciam durante o Inverno e início da Primavera.
A meio do Inverno, tínhamos dois períodos alegres no entanto. Era o Natal e a Passagem de Ano, quando havia a festa anual da aldeia, pela qual esperávamos um ano inteiro, pois era o único divertimento que conhecíamos nessa altura, e os únicos dias do ano, em que tínhamos comidas melhoradas e doces. Também recebíamos visitas de amigos e parentes de longe. A festa também nos animava, com a música, a quermesse, o arraial, os bailes e o balão de ar quente que era largado, para subir e se perder ao longe, na passagem de ano enquanto os foguetes de luzes luminosas estralejavam no ar e era lançado também fogo de artifício. Passada a festa, o inverno continuava com os seus dias frios, gelo, chuva, sacrifícios e brincadeiras, até que o mês de Janeiro, o mais longo do ano, chegava ao fim e no mês de Fevereiro, os primeiros sinais da Primavera iminente, iam-se anunciando, com o rebentar das folhas, as primeiras flores e o verde dos campos, com as sementeiras a nascer.
Mas quando alegres se ouviam os gorjeares das primeiras andorinhas, era a alegria geral: - Já chegaram as andorinhas! - Exclamávamos alegremente!
Era o primeiro sinal do fim de mais um longo inverno e da chegada da nova Primavera, com as suas flores coloridas e perfumadas, e os dias de sol e vento cheiroso!
São algumas recordações dos Invernos da minha infância, agora que mais um Inverno começa. Esperemos que as andorinhas voltem depressa!
Arlete Piedade Louro
Editado em " No Tempo de ... Crónicas de Outras Épocas "




sexta-feira, dezembro 20, 2013

A CHEGADA AO EGIPTO




Era já noite alta, as estrelas brilhavam no céu escuro e límpido, iluminado pelo brilho das constelações e nebulosas que se recortavam claramente naquele firmamento esplendoroso de luz e quietude.

José caminhava desde há vários dias e noites apenas com pequenas paragens para os animais descansarem, e sua esposa e o Menino comerem algum parco alimento que lhe permitisse prosseguir naquela viagem, cujo fim ele esperava alcançar nos dias seguintes.

As suas pernas cansadas prosseguiam no entanto com um ritmo próprio como se não pertencessem ao mesmo corpo e fossem comandadas por algum mecanismo desconhecido de um tempo futuro, ou talvez passado, José não sabia, mas sentia que elas não lhe pertenciam e alguma força superior as comandava em seu lugar e lhe fazia sentir aquela urgência em prosseguir sem descanso até o Menino estar seguro em terra egípcia.

Olhou para trás brevemente, alertado por algum ruído diferente e quase impercetível e viu sua esposa que dormitava sentada no burro exausto que no entanto ia também arrastando as suas patinhas desabituadas daquele piso, e envolvido na manta que o protegia do frio noturno do deserto, o pequeno vulto do filho de Maria, mas a quem ele amava com um amor tão forte que sentia que daria a sua vida para o proteger e a sua mãe.

Um pequeno vulto negro no céu, se destacou por breves momentos contra o brilho da noite estrelada e José pensou que fosse uma ave noturna e em breve esqueceu, enquanto prosseguia incansável rumo ao sol nascente cujos clarões da aurora já começavam a pincelar o céu com rosas e violetas sob um fundo dourado.

Em breve o sol esplendoroso e ardente iria subir rapidamente no céu e cada dia era mais difícil prosseguir viagem sob o calor sufocante.

José sabia que mais á frente existia um pequeno oásis com algumas árvores e um pequeno poço que servia há várias gerações para os caminhantes do deserto sobreviverem naquelas paragens inóspitas matando a sua sede e dos animais e esperava alcançá-lo antes do sol ficar a pino sob as suas cabeças para pararem um pouco e descansarem da fadiga.

Enquanto o sol se erguia rapidamente ofuscando o brilho das estrelas, José viu que sua esposa quase tombava da montada, devido ao extremo cansaço e lutava para aconchegar a sua preciosa carga, ao seu colo cansado.

Parando a sua marcha José acorreu e tomou para o seu colo, o menino que dormia ainda, embora desse sinais de em breve despertar, pois que entreabria os seus olhinhos escuros e curiosos, mas depois os voltava a fechar devido á luminosidade ardente.

José colocou-o sentado sob os seus ombros e o menino colocou os bracinhos á volta da sua cabeça para se segurar, depois de José lhe ter ajeitado o seu turbante para o proteger do calor ardente.

Foram prosseguindo e José ia falando com o seu filho para o distrair da fome e da sede e do calor, contando histórias que ouvira a sua pai, de homens de outros tempos e das lutas que travavam no deserto contra leões e bandidos, e como guerreiros, sempre venciam, depois de lutas muito difíceis e demoradas, cheias de ciladas e armadilhas.

O menino ouvia com interesse debruçado sobre a sua cabeça para melhor ouvir, e assim foram caminhando com Maria dormitando atrás sob o burrinho até que alcançaram o oásis.

No entanto o velho poço estava quase entulhado com pedras derrubadas que algum vândalo sem respeito pelos outros caminhantes, ou alguma tempestade ou luta, tinham originado.

José olhou para os odres em pele, onde só uma pequena gota restava, quente e salobra, e retirando o menino de sob os seus ombros, colocou-o cuidadosamente sentado á sombra de uma tamareira, que no entanto por não ser a época, não tinha frutos, dizendo-lhe:

 - Jesus meu filho, fica aqui sentado que eu vou ajudar tua mãe a desmontar para descansar também um pouco aqui junto de ti.

O menino sorriu em silêncio acenando com a cabeça afirmativamente e José aproximou-se de sua esposa ajudando-a a descer da montada e retirando do alforge, uma manta resistente, estendeu-a á sombra da árvore e lá acomodou os dois seres mais importantes da sua vida para um breve descanso enquanto prendia com um laço comprido, o burrinho á árvore também.

No entanto o pobre animal também exausto deixou-se cair junto a seus donos e assentou a sua cabeça entre as patas para também descansar.

Então José despindo a sua túnica aproximou-se do poço entulhado e com esforço começou a tentar remover as pedras enormes que o tapavam, o que parecia ser tarefa superior ás suas forças humanas, dado a tamanho e o peso das mesmas.

Mas José não era homem de desistir, quando estava em causa a sobrevivência da sua família e ficou olhando em volta, concentrando-se e procurando uma solução para o problema.

Reparou então numa árvore mais afastada do poço e que devido á falta de água estava quase seca, e indo ao seu alforge de lá retirou uma foice com uma lâmina afiada e curva que tinha levado para acudir a alguma emergência no deserto.

Aproximando-se da árvore com aquela ferramenta rudimentar, começou a cortar o seu tronco pacientemente, para fazer uma alavanca que lhe permitisse remover as pedras do poço.

Ergueu os olhos ao céu numa prece silenciosa e tomado de um súbito vigor ao olhar para o seu filho que brincava com um pequeno tronco fazendo desenhos na areia, atacou com força redobrada a pequena árvore, que em breve estava decepada sob os seus golpes certeiros.

Então aproximando-se do poço, começou a manobrar a sua ferramenta improvisada e as pedras começaram a ceder, e a serem levantadas pela habilidade do homem conjugada com a ferramenta rudimentar e intemporal que também lhe iria servir de cajado se resistisse pois o seu tinha-se partido ao escalar uma encosta pedregosa.

Em breve a água escura e fresca estava á vista e José mergulhando os seus odres na água, os encheu completamente e os levou a seu filho que bebeu cuidadosamente e a sua esposa que ainda mais parcamente bebeu a sua porção de líquido vital á vida.

Desdobrando um recipiente em pele que traziam no alforge, colocaram também um pouco de água que o animal sorveu com evidente satisfação e até se levantou como se quisesse continuar a caminhada, mas na verdade procurava algo para comer.

Comida, José procurou no fundo do alforge e encontrou um pouco de pão seco, que demolhou com um pouco de água fazendo uma açorda tosca que deu a comer a sua esposa e seu filho, e também um pouco para o animal.

Para ele próprio, apenas algumas gotas de água para lhe humedecerem a boca ressequida e a pele abrasada do calor do sol, enquanto se sentava por momentos junto aos seus á sombra da árvore raquítica.

A sua cabeça tombou por breves momentos e Maria disse-lhe com ternura para que descansasse algum tempo, que o Egipto já estava á vista e que estavam livres da perseguição do inimigo.

José fechou os seus olhos e uma visão estranha por breves momentos de sono sobressaltado o assaltou, e viu uma cruz alta erguendo-se contra um céu escuro em que nuvens de tempestade e raios se entrecruzavam e compreendeu num relance que a sua missão estava longe de estar concluída, mas de momento podia descansar um pouco.

O sol declinava no horizonte, quando todos retomaram a marcha e em breve o céu estrelado onde um cometa com uma longa cauda, fez a sua aparição, recordou a José que naquela noite se completavam três anos do nascimento do menino em Belém, e que uma estrela assim brilhante lhe tinha indicado o estábulo e que agora lhe indicava de novo o caminho seguro para nessa noite cruzarem a fronteira do Egipto e ficarem em segurança na terra prometida.

Guiado pela estrela, José foi caminhando sem desfalecer sentindo uma presença benéfica junto de si, guiando os seus, e quando o sol se reergueu de novo, iluminou uma paisagem nova e diferente onde verdes planícies se avistavam ladeando um rio de água azul tão brilhante que corria preguiçosamente através dos campos circundantes e ao longe estranhos edifícios pontiagudos, ou mesmo montanhas, José não sabia, se erguiam por detrás de uma cidade magnífica cujos minaretes rebrilhavam como jóias ao sol da manhã.


Tinham chegado! Era o Egipto, a terra prometida! José tinha cumprido a primeira parte de sua missão de pai e protetor do seu filho e da sua esposa.

Arlete Piedade

Este conto ficou em 5º Lugar, no IV Concurso Artístico "Histórias de Natal" promovido pelo Centro de Estudos Culturais de Petrópolis - RJ (Brasil).